O revanchismo da Folha contra Dilma
16 novembro 2010
Em 2008, quando o governo federal trouxe à tona o debate sobre a abertura dos arquivos da Ditadura Militar, boa parte da imprensa dominante brasileira alinhou-se aos militares de pijama e aos mais diversos setores da direita brasileira para dizer que se tratava de revanchismo. A gritaria foi tanta, fortalecida pelo discurso conservador da grande mídia, que os setores mais combativos do governo arrefeceram.A revisão da Lei da Anistia não saiu, os arquivos da Ditadura continuaram fechados, todos nós continuamos cegos, surdos e mudos, continuamos ignorantes, o conhecimento sobre o passado brasileiro está logo ali, mas ninguém pode tocá-lo. Index Librorum Prohibitorum.
Pois alguns arquivos esses mesmos personagens querem abrir. Os personagens das trevas, da ignorância, da Idade Média, da obscuridade. O jornal Folha de S. Paulo comemorou, nesta terça-feira, uma vitória na Justiça. Depois de uma verdadeira batalha judicial, poderá ter acesso ao processo da Ditadura Militar contra a presidente eleita Dilma Rousseff (PT).
A ânsia da Folha em ter acesso a esses arquivos estranhamente não se reflete em qualquer vontade de ver abertos todos os outros, os arquivos que tratam de torturas, assassinatos e outras agressões dos militares de 64 aos cidadãos, à sociedade, e à democracia brasileira. Abrir esses arquivos seria revanchismo, dividiria o país, traria confrontos desnecessários, blábláblá.
É claro que a Folha queria mesmo é ter tido acesso a esses documentos antes das eleições que elegeram Dilma contra o candidato do jornal e do PSDB, José Serra. Como não deu, agora deverá usar as informações para tentar criar crises em um governo que ainda nem começou, mas já incomoda. A derrota eleitoral não foi bem assimilada, e o revanchismo está, agora sim, presente.
Vale esclarecer que são documentos diferentes, presos em instâncias diferentes. O processo de Dilma esteve aberto para consulta durante muitos anos, e só nas vésperas da eleição, com a então ministra já cotada para ser a sucessora de Lula, a Folha interessou-se. A Justiça impediu o acesso para que não fosse feito uso eleitoral. Os tais “arquivos da Ditadura”, pelo contrário, estão lacrados desde sempre.
Na próxima semana, quando a ata da sessão que aprovou a liberação dos arquivos for publicada, a Folha poderá usar os dados. O que sairá daí é esperar para ver. Mas não custa redobrar a atenção. O revanchismo está à solta.
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