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sábado, 22 de janeiro de 2011

Brasil Animado: enciclopédia em 3D

Animação peca pelo exagero em alguns aspectos, inclusive estereótipos


O primeiro filme 3D do Brasil lança mão da natureza. No enredo, 2 amigos, “Stress” e “Relax”, saem viajando por alguns estados brasileiros em busca de uma árvore (Jequitibá Rosa). Passam por Rio de Janeiro, Minas Gerais, Pernambuco, Ceará, Bahia, Amazônia, Brasília, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná e São Paulo.


Brasil Animado aposta dos estereótipos para mostrar toda a variedade de brasileiros, inclusive, sua fisionomia e jeito próprio de falar. Mas será que colocar um garçom cearense, retratado com a cabeça quadrada, quase igual a uma mesa, é o caminho certo? Penso que não. Existem outras formas de trabalhar com a diversidade nacional sem exagerar, como não carregar demais nos sotaques, por exemplo.


O exagero já começa pela dicotomia “Stress” e “Relax”. O carioca, com seu sotaque exagerado, que “deixa a vida levar”, só quer saber de “curtir” as belezas naturais, num estilo meio Zé Carioca, meio hippie, e o paulista, morador de Santa Rita do Passa Quatro (deixou de viver na Capital, pois a cidade é muito cara), estressado, guloso, só quer saber de lucrar e trabalhar, não se diverte. O carrancudo representante da terra da garoa só afrouxa quando vê mulheres – principalmente as gaúchas -, em especial, Giselle Bündchen.


O filme é “enciclopédico”. Quem assiste se vê diante de um Globo Repórter 3D misturado a desenhos. Pesam demais as estatísticas e os inúmeros dados. Como você pretende prender a atenção, especialmente, das crianças com uma montoeira de datas, altitudes, quilometragens e informações do tipo “você sabia...”?


O merchandising é muito presente também. O carro em que as personagens viajam é um Gol vermelho comprado na Caltabiano (está escrito no veículo). Além disso,  os amigos comem em locais indicados pela Veja São Paulo “Comer e Beber”, vão ao São Paulo Fashion Week e frequentam estabelecimentos que aceitam Mastercard (o papel inconfundível da empresa de cartões de crédito, um pouco desfocado aparece colado na parede de um lugar).


Agora, é inegável que a estética do filme é muito boa. As belíssimas paisagens em três dimensões te dão a impressão de estar em uma janela, vendo desde o bondinho do Pão de Açúcar, no Rio de Janeiro, passando pelas cidades históricas de Minas Gerais, até Canoa Quebrada, no Ceará, ou Porto de Galinhas em Pernambuco de forma muito realista, quase presencial. Alguns toques de humor e interatividade são bem feitos e a estratégia para obtê-los também: há um momento em que a câmera foi posicionada no Centro de São Paulo e parece que ela está abandonada, apenas filmando as pessoas que passam. Um senhor passa, olha para câmera e uma narração faz comentários como se estivesse vendo o público. Ele passa. Quando se pensa que não voltará mais, aparece ainda mais perto da câmera, examinando minuciosamente “quem estará do outro lado”.


Não sei se é o tipo de história que agradaria crianças, pois, apesar de ser animação, é arrastada e “manual de turismo”. Talvez os adultos considerem a história fraca demais pra se prenderem por 1 hora e meia no cinema.


Veja o trailer:






sábado, 18 de dezembro de 2010

Drácula: humano, demasiado humano

Atenção: contém spoilers


Há algum tempo li Drácula, de Bram Stoker. Livro impressionante: história bem narrada - um envolvimento fantástico com o enredo, personagens bem amarrados. Um tanto quanto dramático, porém extremamente assustador. O autor se baseia em um personagem principal (o conde Drácula) e demoniza-o. Constrói um monstro, um ser sugador de sangue humano que é incapaz de amar, afinal de contas, deixou de ser humano.




[caption id="attachment_938" align="alignright" width="300" caption="O ator Bela Lugosi, na mais clássica adaptação de Drácula para o cinema, de 1931."][/caption]


O final do livro conta com o grupo heróico que toma por missão destruir a criatura triunfando, apesar de todos os percalços. A história termina de forma aberta, com o monstro virando pó. Essa forma de encerramento suscita dúvidas com relação à eliminação do vilão: será que ele morreu por completo?


Contando com essa dúvida, surgem diversas histórias de continuidade - livros e filmes. O sobrinho-neto do autor de Drácula, Dacre Stoker, conjuntamente com Ian Holt, escreve Drácula: o morto vivo - A sequência do clássico de Bram Stoker. A aposta inicial não é no conteúdo da continuação, mas sim no sobrenome Stoker e no apreço pelo livro inicial.


A obra relata como segue a vida do grupo que supostamente eliminou Drácula. Ao contrário do livro de Bram, não há nada de romance: a história é um mata-mata generalizado e cruel (no final, não sobra um daqueles que lutaram contra Drácula, pois todos têm uma morte dolorosa). O enredo se mostra confuso em sua narrativa. São planos em demasia, em um "vem e vai" desnecessário.


Além das desgraças com as personagens, o livro apela para a sexualidade, descrevendo em detalhes atos sexuais e orgias, tudo banhado a sangue fresco. Mais púdico, Bram Stoker, apenas menciona, nas entrelinhas, as "relações íntimas" que Drácula tem com Mina Harker (a protagonista).


Mas, a pior parte é a extrema humanização dada ao "príncipe das trevas". Com a inserção de uma vampira mais malévola do que Drácula (que não morreu, afinal), condessa Elizabeth Bathory, os autores insistem em humanizar o conde. Ele passa a ser a vítima, pois segundo o livro, estava caçando Bathory quando se inicia a perseguição do livro de Bram Stoker. A lógica da história original é subvertida.




[caption id="attachment_937" align="alignright" width="300" caption="Príncipe Vlad III, conhecido como o empalador e a condessa Elizabeth Bathory, que gostava de orgias regadas a muito sangue"][/caption]


Apesar desses fatos, é ressaltado um lado histórico que não aparece no Drácula inicial. No decorrer da obra e no pósfacio, são mostrados os personagens históricos Príncipe Vlad (Drácula) e Elizabeth Bathory: ambos existiram e entraram para a História por sua crueldade e sede de sangue. O caso de Jack, o estripador, conhecido assassino em Londres, que matou prostitutas e as esquartejou, é colocado como uma das peças-chave do enredo.


Com uma leitura não fluida e alguns momentos de adrenalina, a continuação de Drácula não convence. São 413 páginas de muito esforço para concluir a leitura. No Submarino, você compra por R$ 9,90. Vale à pena guardar os trocados para comprar entradas de cinema ou teatro.