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domingo, 10 de julho de 2011

Para - deixar de - pensar no futuro

Do Diário do Centro do Mundo


Como Os Filósofos Recomendam Que Lidemos Com O Medo Do Futuro






Paulo Nogueira



Escrever sobre filosofia aplicada ao dia a dia foi uma das tarefas mais divertidas de minha carreira. Eu tinha uma coluna na revista Vida Simples. O nome era autoexplicativo: “Os Sábios e Nós: como eles podem nos ajudar”. Revi, há pouco, alguns dos textos. Publico abaixo um deles. É um elogio da imprevidência. Há aí algo de provocador, mas existe bem mais que isso. Faça sua previdência, cuide da poupança, mas não se deixe esmagar por preocupações sobre o futuro. O texto:

O sábio é um imprevidente. Vive apenas o dia de hoje. Não pensa no futuro. Não planeja nada. Não se atormenta com o que pode acontecer amanhã. Eis um conceito comum a quase todas as escolas filosóficas: o descaso pelo dia seguinte. Mesmo em situações extremas.


Conta-se que um filósofo da Antiguidade, ao ver o pânico das pessoas com as quais estava num navio que chacoalhava, sob uma tempestade, apontou para um porco impassível e disse: “Não é possível que aquele animal seja mais sábio do que todos nós.” Era possível, sim.


O futuro é fonte de inquietação permanente para a humanidade. Daí a recomendação reiterada dos filósofos para que o tiremos da cabeça para nos concentrar apenas no presente – tememos perder o emprego, tememos ser traídos numa relação amorosa, tememos perder o cabelo e ganhar rugas. Tememos, para resumir, o colapso dos nossos planos. É mais inteli-gente, portanto, dada a deletéria carga de aflições associada ao planos, simplesmente não tê-los. O medo do dia de amanhã impede que se viva o dia de hoje. A imprevidência é uma das maiores marcas da sabedoria, escreveu Epicuro.


Neste ponto a filosofia ocidental encontra eco em outras tradições. A essência do zen budismo é viver o que se consagrou como o aqui, agora. No zen, martela-se o conceito de que o passado, como ficou para trás, já não existe. E o futuro, como ainda está por chegar, também não. Vivamos o presente, então. No cristianismo essa idéia também é potente. Uma das passagens mais líricas e belas do Novo Testamento afirma que a cada dia bastam seus problemas. É nessa passagem célebre que Jesus, aos que se inquietavam com o futuro, cita os lírios do campo, tão calmos, tão calmos em sua beleza deslumbrante. E afirma que nem Salomão, “em toda a sua magnificência”, se vestiu como qualquer um deles.


Somos tanto mais serenos quanto menos pensamos no futuro. Como tantas outras coisas, é mais fácil escrever essa frase do que praticá-la. Mas um bom ponto de partida para todos nós é refletir sobre ela. Vivemos sob o império dos planos, quer na vida pessoal, quer na vida profissional, e isso traz muito mais desassossego do que realizações. O mundo neurótico em que arrastamos nossas pernas trêmulas de receios múltiplos deriva, em grande parte, do foco obsessivo no futuro. E não estamos falando num futuro paradisíaco, mas num amanhã cheio de trevas e riscos e perdas. Há um sofrimento por antecipação cuja única função é tornar a vida mais áspera do que já é.


Epicuro, como já foi dito, saudou a imprevidência como um gesto essencial de sabedoria. Volto a ele. Epicuro, numa sentença que o tempo fez antológica, disse que nunca é tarde e nem cedo demais para filosofar. Para refletir sobre a arte de viver bem, ele queria di-zer. Para buscar a tranquilidaqde da alma, sem a qual mesmo tendo tudo nada temos a não ser medo, medo e medo. Também nunca é tarde demais e nem cedo demais para lutar con-tra a presença descomunal e apavorante do futuro em nossa vida. O homem sábio cuida do dia de hoje. E basta.



segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

E aqui vai a pergunta de 1 milhão de reais

[Futuros] Jornalistas: é possível mudar o mundo?

Dica da Monique Buzatto, do Papo de Menina:


11th dezembro 2010


written by Paulo Nogueira

Que o Brasil precisa de um Wikileaks é fato.

O Wikileaks é um avanço jornalístico. Seu único alvo é, genuinamente, o interesse público. Por ser uma organização sem fins lucrativos, tocada por voluntários idealistas, não sofre as pressões típicas de grandes empresas jornalísticas.

Fazer reportagens críticas sobre grandes anunciantes ou credores é sempre complexo no mundo real das redações.

A Folha de S. Paulo fez do bordão “sem rabo preso” um instrumento de publicidade. Mas veja os arquivos da Folha e tente achar artigos duros sobre anunciantes ou credores. Os jornalistas da Folha, em seu código interno, chamam de “Operação Portugal” as reportagens mais delicadas. Nos tempos em que Octavio Frias de Oliveira estava vivo, ele pautava e lia pessoalmente os textos em que anunciantes ou credores da Folha eram o tema.

Quem me informou sobre o curioso apelido das matérias melindrosas foi o autor de muitas delas, o jornalista Nelson Blecher. Blecher trabalhava na Folha quando o convidei para ir para a Exame, nos anos 90, no momento em que eu era diretor de redação. (Alguns anos depois eu perceberia que era o maior erro de contratação que cometeria na carreira.) Não era à toa que Blecher costumava ser escalado para muitas das Operações Portugal. É que ele tinha e tem espinha dobrável: faz o que o chefe ou o patrão mandar, sem maiores discussões. Para usar a palavra com que o jornalista Evandro Carlos de Andrade pateticamente se autodefiniu para convencer o empresário Roberto Marinho a contratá-lo para dirigir o Globo, é um “papista”. O papa falou, a conversa está encerrada.

Papa é o superior.

O papismo domina, em variados graus, o jornalismo internacional e brasileiro. Fazer carreira sem ser papista é complicado. Meu pai, Emir Nogueira, por exemplo, não era. Pagou um preço alto. Uma vez, nos anos 60, quando era editorialista da Folha, Frias pediu a papai que escrevesse um editorial no qual dissesse que não havia presos políticos, apenas presos comuns. Havia, na época, uma greve de fome entre os presos políticos. Papai recusou a ordem. Foi congelado na Folha. Quando eu estava iniciando a carreira, ele me contou esta e outras histórias, não para se gabar mas para me educar. “Seu pai seria presidente do jornal se fosse diferente”, ouvi no começo da década de 1980 de um grande jornalista da Abril que trabalhara sob papai na Folha.

Se fosse papista, ele queria dizer.

Quando me comparo a meu pai, vejo o quanto sou pior que ele exatamente na questão do papismo. Não que tenha uma espinha à Blecher, o anti-Wikileaks por excelência. Mas sempre tive clareza em que na vida corporativa os interesses e os princípios das empresas se sobrepõem aos dos indivíduos. Que queria acontecido se eu estivesse no lugar de papai quando veio a ordem de escrever um editorial que negava a existência de presos políticos?

Não tenho que dizer que me fiz esta pergunta muitas vezes em minha carreira. Gostaria de dizer, convicto, que recusaria como meu pai. Mas imagino que taparia o nariz e escreveria. Arrumaria alguma justificativa que não me fizesse me sentir um miserável, provavelmente. Foi, presumo, o que fez o jornalista que afinal escreveu o editorial, Claudio Abramo, um dos maiores talentos de sua geração. Se me conheço, agiria como Claudio e não como meu pai.

O papismo é típico das organizações convencionais – e não apenas jornalísticas. Sem ele, pode-se argumentar, uma empresa não funciona. Mesmo em corporações de vanguarda como o Google a essência hierárquica é papista.

Não é à toa que o Wikileaks surgiu fora do ambiente corporativo tradicional. Seus fundadores e colaboradores não estavam comprometidos com carreiras tal como as conhecemos. Não tinham sido inoculados com o vírus do papismo. Não se moviam a bônus e benefícios, como todos nós. Tinham um desejo quixotesco de mudar o mundo. Torná-lo não necessariamente mais transparente, mas mais justo. Viam nos governos de potências e nas grandes empresas um mal a combater – com vazamentos que os embaraçassem e enfraquecessem. Tinham uma liberdade de movimento que se transferiu integralmente à própria organização.

O mesmo fatalmente acontecerá no Brasil.

Não dá para imaginar os jornalistas brasileiros que estão hoje nas redações fundando um site nos moldes do Wikileaks. Você pode fazer história, como Julian Assange. Mas não vai ter bônus e talvez sequer um salário regular.

É um território para puristas, idealistas, voluntários. Gente que, como Assange, chega aos 40 sem ter uma casa.

O sucesso extraordinário do Wikileaks no mundo vai animar brasileiros a replicá-lo no Brasil em busca de um país melhor.

Nós, típicos jornalistas, somos demasiadamente cínicos, vaidosos e gananciosos para abdicar do conforto de carreiras sólidas para mudar o mundo.

Mudar o mundo, para nós, é uma piada, utilizada para caracterizar focas sonhadores.

Para pessoas com o perfil do Wikileaks, é uma missão.